quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Mafalda e Emília para a reitoria!!!
A Universidade que me desperta é por demais utópica, romântica, afeita a pensamentos pouco práticos e razoáveis. Dá-me certo constrangimento dela falar porque fomos doutrinados desde logo por uma razão tecnicista, materialista e pouco afeita à diferença.
Contudo, na UFSB sinto-me um pouco mais à vontade em sonhar. Aqui é espaço para sonhar também? Sonhar com um país melhor? Com um mundo melhor? Com uma sociedade mais inclinada à diversidade na diferença, uma sociedade como a cantada por Zélia Duncan: “eu quero a unimultiplicidade”? É possível sonhar com uma universidade para além do capital e dos interesses do consumo? Teremos uma universidade que ensine a preocupar-se menos com o PIB do país ou com a conta bancária, e mais com o FIB e as relações que travamos com os amigos?
A UFSB, universidade da qual faço parte, me solicita um texto, pois bem, tem-se um pedido, tem-se o interlocutor, tem-se o canal de comunicação aberto. E com quem me comunico? Ora com a UFSB, com os professores, com meus pares. Mas, que estranho, a universidade que solicita o texto é a mesma que irá legitimá-lo ou não. Quem avalia? Não há nenhum problema em a parte solicitante ser a mesma que julga? Michel Foucault já nos ensinou como instituições controlam discursos, como lhes impõem uma ordem com vistas à dominação de seus temíveis poderes. Espero que o controle exercido pela UFSB seja o mais delicado possível. Ocorrerá?
Penso que é preciso delicadeza para se viver e ser mais. Tomando-se a trindade que acompanha a UFSB: Anisio Teixeira, Paulo Freire, Milton Santos, só pode, esta universidade existir em razão de ser dos seus educandos, dos sujeitos que a fazem, da comunidade, do oprimido, contrariando o capital, refutando o conhecimento compartimentado e estanque, criticando o fechamento da universidade em si mesma, com seus doutores que parecem estar numa torre de marfim, bem distantes da realidade e dos bairros que gritam ali, ao lado.
A UFSB nasce como um sonho. Frei Betto, sempre nos lembra: é preciso estar grávidos de Utopia. Ou seja, é preciso sonhar sonhos impossíveis. Ou é isto ou a barbárie? Não sei se tão dicotômico assim, mas o fato é que, o cientificismo, criticado por pensadores desde Nietzsche até os pós-estruturalistas, Zigmunt Baumam, Jacques Derrida e Michel Serres, nos contam que a Universidade que aí está tem aprofundado o fosso entre o conhecimento e as pessoas. Caduca, velha, redundante e violenta, aprisionada no século XIX como se fosse uma redentora para a qual todos devem ir, parece esconder as agruras e a dificuldade em manter-se em pé. A Universidade como tal qual está desensina, não se justifica mais, nem se sustenta.
Ao longo de minha vida, passei por algumas universidades. E que estranho. Sujeitos mais preocupados em fortalecer seus grupos de pesquisa – nada interdisciplinares, ocupados em melhorar sua pontuação no currículo lattes, porque este facilita bolsas de pesquisa e de algum modo, serve como moeda de troca, sujeitos que querem mudar de nível e ganhar um pouco mais. Este mesmo sujeitos, protegem-se uns aos outros e lutam contra outros. Vide as disputas entre as universidades, os grupos de pesquisa, os professores, os alunos. O que se aprende nesse ambiente? A disputar. Disputamos a atenção de todos, formados por estas universidades aceleramos em nós o narcisismo e, por outro lado, tornamo-nos bastante corporativistas e condescendentes com as falhas desde que sejam do pessoal do nosso grupo.
Quem já assistiu ao filme “Entre os muros da escola”? Os professores preocupados com o preço do cafezinho e não com o aprendizado de seus alunos. O professor que todos sabiam ter chamado as alunas de “vagabundas” é o mesmo que, com a ajuda de seus colegas, protegendo-se mutuamente, expulsam um aluno que teria provocado o incidente.
Para não ser tão sombrio, proponho brincar um pouco. Inicialmente, que tal se as aulas sempre fossem em roda e onde a vida acontece? Que tal fora do paralelepípedo onde estamos agora e em roda? Em roda, ao que me parece, aprende-se mais. Some a ideia do professor como adestrador, como pároco de igreja, como ator a executar monólogos, e tem-se uma aula-encontro em que a diversidade e a diferença de opiniões dão lugar.
Outro aspecto, que nenhum conhecimento seja lançado para o limbo, mas que, se proponha seu amadurecimento. Claro que objeções são sempre bem-vindas, mas, se parto de dois princípios socráticos, a maiêutica, em que se aprende perguntando, e a frase célebre, “só sei que nada sei”, penso que talvez devêssemos ser mais humildes frente ao conhecimento do outro e sobremodo que desconfiemos do nosso próprio saber, colocando-o sempre sob suspeita e em suspenso.
Não importa se o professor, se o aluno, seja lá quem for detenha certa expertise em dado assunto, pouco importa se doutor, pós-doutor ou bi-douto, ora, tudo se nos escapa. Por que então, a arrogância? O que se esconde? Por que tanta marra?
Ainda quanto à roda, fico a pensar que ela rompe com a fábrica cartesiana em que a gente vê apenas a nuca do outro; aponta para saberes que se aprende com o outro. Aponta para o samba, para as rodas de candomblé, para os ritos dos pajés, para a roda de capoeira com seus jogos de esquiva, movimentos de corpos, vai e vem. A roda é muito mais dialética do que o silogismo. Ela não trabalha com o terceiro excluído nem com a hierarquia que oprime, bem/mal, certo/errado, inteligente/besta. Esse movimento constrange novamente os editos desde René Descartes que ignoram o corpo e os movimentos, tratando as pessoas como robôs, como objetos, como máquinas?
A roda, os jogos de corpos e esquivas apontam para a diversidade de pensamento. Logo, nós alunos não entenderemos as aulas como: “nossa, essa aula foi polêmica”. Aí alguém diz: “Quem não foi, perdeu a aula, ela rendeu, tanta polêmica...” Oxente, a aula virou espetáculo, show? É isso mesmo?
A ideia é que as pessoas possam divergir e que os todos compreendam que só pode haver vida na divergência. O contrário disso é o messianismo e o mutismo. Ou então, o apego à Verdade. Gosto do Nietzsche: me apego à verdade como quem toma banho num rio gelado. Entro rápido e saio mais rápido ainda.
Terminando, gostaria, se possível fosse, que a universidade agregasse à Milton Santos, à Paulo Freire e à Anisio Teixeira, algumas figuras que a mim são bastante caras. São duas mulheres, até porque, o time de teóricos que citei é bastante masculino, não é mesmo?
Que tal se amparássemos tal universidade pelas meninas Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo e pela danada Mafalda, do argentino Quino. Sempre a criar problemas, sua universidade é a da pergunta e não a da resposta porque sabem que tudo vaza como água. Emília certa feita, perguntou ao Visconde de Sabugosa que lhe ensinava as regras de gramática: “Sim, seu Visconde, e onde colocar as incertezas?” Após a resposta, arrematou: “Já sei, vocês doutores quando não tem certeza de algo chamam a isto de hipóteses, não é?” E a Mafalda então? Há uma tirinha em que Mafalda pergunta para seu amigo, Miguelito: “Quais seus planos para a primavera?” O menino responde: “Viver!” Sabe-se que Miguelito não gosta nem um pouco de ir à escola. Ele quer viver! Mafalda em outra tirinha encontra em um dicionarizada a palavra “democracia”. Lê e se farta de rir: Democracia: “Governo em que o povo exerce a soberania”. São muitas as risadas. Em outra tirinha com Miguelito, Mafalda aparece correndo. Quer ir para casa ouvir o noticiário sobre as últimas descobertas dos satélites. Miguelito logo se posiciona: “Vida em Marte! Não te surpreende que haja vida noutros planetas?” Rádio ligado: “Bombardearam intensamente o Vietnã do Norte. Genebra não chega a acordo sobre o desarmamento nuclear. Jordânia: novo tiroteio com tropas israelitas”. Mafalda não se segura: “O que me surpreende é que haja vista neste planeta”. Se não for demais, então, defendo uma chapa para à reitoria: Mafalda e Emília, já!
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